sábado, 7 de janeiro de 2012

a ti, amigo

escrevo-te por não saber que fazer. A atenção dispersa-se e os objectivos ficam distorcidos lá bem ao fundo do túnel. Quem me dera ter a tua garra, vontade de trabalho, capacidade de dedicação, empenho. Por isso tudo, posso dizer-te, eu invejo-te. Não te deixas levar por merdas, consegues tornar as distracções numa fonte de motivação, consegues ver o sol brilhar lá no fundo mesmo quando sobre ti só há nuvens e chuva e trovoada. Mesmo quando o que menos te apetece fazer é sorrir consegues fazê-lo só para eu conseguir também, e isso não tem preço. Sempre te disse, admiro-te muito e um dia, quando for grande, quero ser como tu. Recorro a ti quando as coisas não estão fáceis, é intuitivo, é humano. Admito que quando estão bem acabo por me desleixar, ainda que te queira sempre do meu lado, sabes bem disso. Quando as coisas estão bem acabamos por deixar as pessoas que são mais importantes para nós ir para segundo plano, o que é parvo, mas é involuntário, porque sabemos que os amigos estarão sempre connosco quando precisarmos.
Sabes bem que não me orgulho nada da asneirada toda que já fiz na minha vida, e acredita que nada me dá mais alento do que recordar-me de todas as vezes que te sentaste ao meu lado a ver-me chorar enquanto me consolavas e ao mesmo tempo me davas na cabeça, por não quereres que caísse no mesmo erro outra vez. Nem todos os amigos conseguem ser tão francos em momentos tão complicados por terem medo de magoar, mas a tua "destemidez" ajudou-me a tornar-me uma miúda mais forte, mais capaz de suportar a verdade e de aprender e crescer com ela. Uma amizade sólida não nasce do nada, é como um animal de estimação: tem que ser alimentada, cuidada, mantida, e educada. E posso dizer que a nossa já está bem grande mas longe de morrer! Sabes bem que o receio de te contar as parvoíces que me passam pela cabeça é grande por já saber que vais mandar uma gargalhada gigante e dizer-me "tu estás parva!", pois eu própria o faço, e é isso que me garante que nos conhecemos mesmo bem, temos maneiras de pensar bastante semelhantes, maneiras de agir e reagir bastante idênticas e é sem dúvida por isso que "este cãozinho está tão bem educado"! O receio de te contar as palhaçadas é quase o de uma criança de dizer ao pai que fez asneira... sabe que o pai se vai rir, porque de facto tem piada, mas no fim vai ouvir um raspanete porque podia perfeitamente ter evitado isso! Ainda assim, sabes que sou uma criança grande e que tão cedo não vou deixar de fazer asneiras... Para quê guardar as asneiras todas para os 80 anos?
Sinto grande orgulho em ti e deixa-me feliz saber que estás bem. É sabedoria "popular" que a nossa própria felicidade passa pela felicidade dos nossos amigos, portanto considera-me aí uns 25% feliz à tua conta! (não te esqueças é que se estiveres mal e eu também fico 100% triste e isso não pode ser!!) Sei bem que me desejas o mesmo, que gostavas muito que a yellow brick road se estendesse à minha frente e que no caminho por ela encontrasse muito mais que leões sem coragem ou robôs sem coração ou espantalhos sem cérebro, mas as coisas têm sido tudo menos fáceis e a tua mão neste caminho torbulento tem sido mais que importante. Muitos mais serão os assholes na minha vida, e muitas mais vezes terás tu que dizer "toma bem conta da miúda", pois nem de outra forma faria sentido, mas se dependesse de mim evitava os meus desabafos, as minhas paranóias, os meus stresses e os meus filmes. Sabes bem que a minha imaginação é demasiado fértil, ainda que sejam raras as vezes que ela vira para esses "flancos", e sei perfeitamente que já nem tens paciência às vezes, mas as gargalhadas que mandamos com a quantidade de merdas de que eu me vou lembrar vale bem a pena! Se dependesse de mim as coisas eram simples: ficava para tia, esquecia estas palhaçadas de confusões evitáveis, de bocas desnecessárias, de conflitos precipitados e era eternamente eu. Too bad o ser humano gostar de complicar o que é bastante simples e de tornar alturas bastante pacatas num gigante turbilhão. Ao fim ao cabo é isso que anima a vida, mas eu dispensava... sabes bem que já não sou miúda de confusões. Mudei!
Gosto disto, de poder dizer-te coisas absolutamente aleatórias, escondidas por entre metáforas, esquecidas de nomes, alheadas de um tempo concreto. Conheces-me bem, muito bem, e é essa a qualidade que mais gosto em ti. Bastou um olhar no outro dia para entender que me estavas a perceber. Não trocámos palavra. Abraçaste-me e só me apeteceu chorar. Para mim uma amizade verdadeira é isto: dizer TUDO sem verbalizar nada.



-M

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