Hoje em dia loucos são aqueles que conseguem viver uma relação e estimá-la para que se torne duradoura... A banalização dos momentos íntimos e de partilha tanto pelos filmes como pelas séries fez com que as relações passassem para um patamar totalmente diferente daquele em que estavam há uns 20 ou 30 anos atrás. Ainda que a evolução e a modernização sejam necessárias e importantes chegar ao ponto a que chegámos é tudo menos normal. Onde já se viu viver de relações que de monogamia têm muito pouco? Onde já se viu aceitar estar com alguém que estará com outro alguém no dia ou no momento a seguir? Considero-me uma romântica incurável mas por influência dos tempos em que vivo acabo por nem o conseguir admitir. Se há uns anitos atrás a pessoa estranha era aquela que vivia de encontros ocasionais, hoje em dia estranho é o que ambiciona comprometer-se com uma só pessoa para o resto da vida.
Influenciada ou não pela "re-fixação" em Sexo e a Cidade achei bastante pertinente abordar esta questão, as relações ocasionais estão na moda e vieram para ficar. Não concordo com elas e se pudesse fugia delas a sete pés, mas estas acabam por nos apanhar despercebidos e consomem-nos as entranhas numa quantidade absurda de dúvidas e de incertezas às quais ninguém poderá responder e sobre as quais ninguém nos pode esclarecer. Esta coisa das relações ocasionais anda a funcionar que nem pescadores em alto mar, acabamos sempre presos na rede sem saber bem como e libertar-nos delas... '
tá bem! Absurdo como permitimos que a falta de amor próprio chegasse a estes extremos. A ideia de nos entregarmos a alguém apenas no momento, ainda que na teoria seja bastante interessante, é absurda... Lembro-me de que quando era mais miúda havia o equivalente a isto, chamavam-lhe "uma curte"; uma coisa momentânea, espontânea, infantil, cheia de interesse físico, vazia de interesse intelectual, "mais um número para a lista"... ó crianças estúpidas...! Não há coisa mais complicada do que uma relação sem qualquer tipo de interesses. Como disse, funciona perfeitamente na teoria mas na prática... ó na prática... Quem vive livre de sentimentos é louco, e nada pode magoar mais uma pessoa do que acabar por se agarrar à outra numa situação destas. Uma relação casual acaba por ser uma droga: experimenta-se uma vez e até se acha piada, experimenta-se a segunda e acha-se ainda mais piada, a partir da terceira é vício na certa e deixar vai ser para lá de
fodido! O "bom" nas relações casuais é a possibilidade de sermos "a droga" e não "o agarrado", e é nisso que temos que pensar logo à partida. Transcende-me a mecânica destas coisas; se uma pessoa é capaz de estar com outra é porque existe ligação, "química", interesse, mas não é isso suficiente para permitir a "evolução" para algo mais normal, tipo uma relação? É assim tanto o estigma à volta de uma relação? Ou será que permitimos dar-nos ao luxo de não descartar "mais um para a lista"? Juro sinceramente que não consigo perceber como é que é possível haver pessoas que vivem relacionamentos altamente polígamos, ainda que acabem sempre por recorrer às mesmas pessoas... Entendo, até certo ponto, a questão da "casualidade"... ao fim ao cabo assumir compromissos com outros é tudo menos fácil mas... várias pessoas?! Dá-me o maior nó no cérebro! Se são tão moralistas numas coisas porque diabo é que não metem na cabeça que a poligamia não é uma coisa bonita? Ou mais, será que entendem sequer que estão a praticá-la?
Como já assumi aqui, uma relação de
friends with benefits não me parece assim tão descabida e não a descarto de todo, ainda que ache que para alguém se meter numa coisa dessas tem que ser altamente equilibrado e tem que ter uma relação de amizade bastante particular com a outra pessoa para conseguir uma coisa destas (até porque se se puserem a pensar em filmes e séries e coisas que tais acabam por começar a pensar que vão ficar juntos e isso azeda o ambiente!), mas assumo também que teríamos que viver num mundo bastante equilibrado para conseguir tamanha "perfeição"... Assumindo que a amizade está realmente presente o respeito não devia ser um problema, mas a
masculinidade e a
feminilidade acabam por falar mais alto e as coisas acabam por complicar: se a miúda se "dá" mais um bocadinho é logo um bicho de sete cabeças, o gajo vai logo dizer-lhe que as coisas estavam bem esclarecidas desde o início e assume logo que ela já está absolutamente caídinha, acabam por tentar novamente, ele sempre com a ideia que ela está perdidamente apaixonada na cabeça, ela a agir normalmente e a cumprir a parte que lhe compete - amigos amigos, negócios aparte - pois quem vai mudar de atitude é ele; não consegue perceber que ela se calhar até nem está assim tão a cair de amores... e tudo começa a descambar. Perdeu-se amizade, perdeu-se relação, perdeu-se relacionamento, perderam-se companheiros. Amigos? Benefícios? Que é deles? Às tantas até tinha sido mais simples se se tivessem deixado de relações "modernas" e se tivessem tentado as coisas "à maneira antiga". Mania da malta jovem de se meter em aventuras! As aventuras na tela até correm bem, mas a vida real é tudo menos como pensamos. E a questão aqui é que não ouvi esta história nem uma, nem duas, nem três vezes...
Padecemos todos de um mal: tentamos viver a vida a correr e acabamos por nem saborear as coisas como devemos. Tentamos tirar o máximo de proveito de tudo o que se passa à nossa volta e acabamos por ficar traumatizados com muita facilidade. Se nos magoaram uma vez já pensamos que são todos iguais e acabamos por nem dar hipótese para as coisas acontecerem novamente com uma pessoa melhor. Não digo que devemos todos atirar-nos de cabeça à primeira pessoa que encontramos, nem digo que o "amor" vai ser fácil de encontrar, mas tantas vezes dou por mim a pensar que se calhar já o deixei escapar por entre os dedos e nem me dei conta. Sim, adorava poder apaixonar-me à primeira vista pelo homem da minha vida com quem casaria e teria filhos, mas como sei que isso não é possível só me resta ir visitar o lobo mau à casa da avó da capuchinho vermelho para ver se já ouve melhor, ou se vê melhor pois a única certeza que temos é que o lobo mau nos come sempre!
-M