quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

E se agora me dei ao luxo de tamanho devaneio porque não usufruir dele? E se há pouco disse o quão bem dominamos a arte de camuflar os egoísmos com altruísmos pouco sinceros, pois não há altura melhor para reparar no quão mestre sou na arte de me ocupar com coisas que em nada me interessam mas que me fazem fugir do que realmente importa.
São mais que muitas as vezes em que deparo comigo mesma a fazer bolos ou jantares altamente elaborados. Havia necessidade disso? Não, nem pouco mais ou menos, a não ser a necessidade tremenda e absoluta de comer que nem uma verdadeira javarda até chegar ao ponto de ficar mal disposta... Mas em termos de realização pessoal, serviu de muito? A minha intelectualidade só foi enriquecida com a leitura repetida da mesma receita...
"2 ovos, preciso mesmo de arrumar o meu quarto, 150gr de farinha, se calhar devia estudar para a frequência desta semana, 2 chávenas de açúcar, 3 colheres de fermento..." Sou perita em esquecer as responsabilidades e deixar tudo até à última, mas, quem não é assim? Somos todos! Enfrentar os monstros custa a todos, e quanto maiores são eles mais ocupações desnecessárias acabamos por arranjar! A procura incessante de cafés com pessoas que já não vemos há muito tempo, a ida a determinado sítio para pôr o relógio que, por sinal, já está estragado há meses a arranjar, a necessidade "urgente" de ir cortar o cabelo, a vontade de ver as notícias para saber que desgraças assombram o país, a vontade astronómica de criar um blog, um sem fim de desculpas que só nos fazem esquecer momentaneamente A frequência de amanhã...
Pois bem, é esse o meu maior monstro, a frequência de amanhã. E se devia pegar em todas as minhas armaduras e enfrentar esse monstro de espada na mão destemidamente, só me apetece enroscar-me nos lençóis com medo que ele me agarre na escuridão da noite.
Se me deixa mais tranquila por saber que não sou a única a esconder-me em vez de "agarrar o touro pelos cornos", nem por isso... O que nos faz fortes e modelos a seguir não são as vezes em que nos escondemos que nem crianças nas saias das mães, mas sim as vezes em que heroicamente abrimos a porta do armário para ter a certeza que o monstro não existe.

-M

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